Emersões - Eduardo Conde
   
Histórico
 


 

 

CAMINHOS DESFEITOS.

 

 

 

                   Outro dia indagaram a uma moçoila sobre o que é o amor.

                   - Amor é aquilo que se sente quando se ama.

                   - E o que se sente quando se ama?  Retrucou o entrevistador.

                   - Ora..., é amor!

                   Se eu tivesse que tecer algumas considerações sobre esse sentimento tão decantado em odes e versos, certamente o faria com absoluta cautela e não iria além da trivialidade de alguns argumentos evasivos. Talvez por ser um sentimento tão magnânimo e ao mesmo tempo tão simples, quase sempre acabo não compreendendo a grandeza de sua própria simplicidade.

                   Muito se fala sobre o amor de almas gêmeas, aquele amor infinito, onde a união das partes é regida por laços profundos de eterna harmonia amorosa. Certamente é o amor perseguido por todos, mas me parece um tanto quanto distante de nós, os simples mortais.

                   Como definir o que só sei sentir”? Alguém já se debateu nessa pergunta, referindo-se ao amor. Mas todos nós, embora tenhamos certa dificuldade em conceituar e muito mais em se viver o amor na sua grandeza, sempre o elevamos à sublimação. Ou melhor, seríamos todos nós, se não existisse a ala dos que já juraram que o amor inebria, entontece.

                   Se seguirmos nessa linha de raciocínio defendida pela ala dos dissidentes, poderíamos então perguntar: será que, por conta desse “entontecimento” ao qual o amor nos submete, estaríamos propensos a não termos domínio sobre nós mesmos, a tal ponto de vivermos uma descompensação no nosso emocional?

                   Não quero crer nesse detalhe, mas aí eu me pergunto: o que se dizer dos tantos episódios dantescos, cometidos ao longo dos tempos e catalogados na literatura universal, em nome do amor? O que se dizer das debilidades dos poetas, dos enamorados, dos suicidas, dos que amam profundamente e que morrem em nome do amor? Dos que renegam a vida ao perderem seu amor? Dos que extrapolam todos os limites do bom senso e da sensatez em nome do amor?

                   E mais, se o amor “entontece”, também não seria nada absurdo se perguntar: será que sob os efeitos desse “entontecimento” estaríamos tendentes a sermos vitimas dos caprichos da nossa própria imaginação? Vítimas no sentido de que seríamos nós próprios, em certas situações, que iríamos, às cegas, dotando a nossa “cara metade” com as qualidades, virtudes e dotes que bem nos aprouvesse, tornando-a, inclusive, a imagem da perfeição diante de nossos olhos.

                   – Ele (a) não era o que eu imaginava! Desabafa, com ar de desencanto, a mocinha, ao tentar justificar o rompimento de seu relacionamento amoroso. Desabafos dessa natureza nos deixam a impressão de que a mocinha, ao findar o seu relacionamento, parece ter saído de um estado de transe, de ter retornado da “embriaguez amorosa” a qual estava sob efeito. Repassa a idéia de que, após a ruptura do seu relacionamento, passou a enxergar o outro, com os olhos da realidade, sem os aparatos que os desvarios do amor outro dia concederam ao seu imaginário. 

                    Mas o que leva um casal a romper um relacionamento dantes aparentemente tão sólido, alguns dignos do amor de almas gêmeas? Cadê aquele fascino e encanto característicos do amor genuíno e intenso, um pelo outro? Que fim levou os encantos, as virtudes e dotes tão nobres, as qualidades, a



Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 21h10
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cumplicidade, a resignação recíproca ante aos inevitáveis altos e baixos da relação?  

                   Argumenta, boa parte dos especialistas, que alguns relacionamentos amorosos fraquejam porque muitos casais permitem que a convivência torne-se monótona, enfadonha, rotineira. Mas não seria, em certos casos, o próprio conviver que paulatinamente passaria a mostrar a realidade nua e crua um do outro, o outro lado da moeda até então desconhecido? O fato da relação tornar-se enfadonha não seria obra do próprio conviver que faria despencar o pano de fundo que encobria o tudo de cada um, como se os olhos agora passassem a ver os bastidores um do outro? Não seria o fato dos olhos, ao longo de toda uma convivência, que aos poucos iriam ficando desprovidos das lentes mágicas dos encantos, que passariam a ver o que se escondia por trás da luz turva do fascínio a qual ambos estavam submetidos?  

                   Mas chega a ser interessante o fato de algumas pessoas se arvorarem em enunciar receitas prontas para se viver um grande e duradouro relacionamento amoroso. Ingredientes: algumas doses de paciência; algumas porções de compreensão; boas pitadas de tolerância e alguns punhados de resignação e doação. Ora..., é dizer que, para se viver um grande amor, o próprio amor nos cobrasse um preço não muito módico: abdicar, agredir, infringir, violar, transgredir, subverter nossos próprios preceitos e muitas vezes desrespeitar o nosso amor próprio! 

                   Entretanto, não estou a proferir sentença condenatória aos que se submetem aos caprichos do amor. Aliás, sou crente que, se o amor pressupõe junção de partes, não há duvidas que existem sim, os “inteiros” perfeitos, formados por metades que se permitem ao encaixe perfeito, como a mão e a luva.  

                   Outros nem tanto, não chegam a viver ou conviver sob os auspícios do amor. Até conseguem a proeza de conviverem, aparentemente tão juntos, mas na realidade tão apartados! São para esses que a morte nem precisa chegar para separá-los! Os desejos aquietaram-se, o fogo da paixão amornou; os momentos tão únicos parecem amontoados nos porões das lembranças.   

                   Mas há ainda aqueles pares que a vida em comum, a rotina, a convivência parece ter moldado-os com arestas obliquas, disformes. Já não se acoplam, já não se encaixam, já não se completam e, pior, já nem se aturam. Para essa ala, o “romper do relacionamento” parece ser o único caminho da “salvação”. Aliás, a ruptura de alguns “relacionamentos” chega a ser para muitos parceiros, verdadeiro alivio, algo que beira à sensação de libertação.

                   Apesar de todos os pesares, não é tão fácil se bater o martelo para essa tomada de decisão! Às vezes ela é tomada ali, em comum acordo, como se ambos tivessem a certeza de que o encontro que um dia os uniu, foi um erro de percurso em suas vidas; como também às vezes essa deliberação é prorrogada infinitas vezes e fica ali, agonizando, presa por elos que unem duas metades de um nada.

                   Há as separações de tantas idas e vindas, de tantas e tantas tentativas, de muitas e tantas reconciliações;

                   Há as decididas no centro de uma mesa abarrotada de cobranças, farpas, culpas, desculpas, ranços, insultos;

                   Há aquelas sem grandes perdas e ganhos, nem para quem fica, nem para quem parte.

                   Por conta de uma separação, há os que sofrem calados, mas orgulhosamente resignados;

                   Há os fracos de espírito – pobres coitados -, por uma chance de reconciliação, são capazes de negociar a própria dignidade.

 

                   Há os que renegam definitivamente a busca de novos sonhos em outros braços;

                   Há os que renunciam a própria vida;

                   Há os que “morrem” de saudade, mas não dão o braço a torcer e preferem lamber sozinhos as próprias feridas.

 

                   Há os que blasfemam da sorte,

                   Há os que enveredam por maus caminhos,

                   Há os que perdem seu rumo, seu norte,

                   Há os que só encontram a felicidade estando sozinhos.

 

eduardo.conde@uol.com.br




Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 21h08
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Mas me perguntei: e se for? Afinal, estamos falando de mente humana!

 

 

 

FILHO DE PEIXE...

 

 

 

                   Confesso, me fascina a natureza humana. São incrivelmente fantásticas essas tramas espetaculares das quais fazemos uso para moldarmos nosso comportamento de acordo com nossas conveniências e desejos mais intrínsecos. São muitos desses nossos “comportamentos ardilosos” que nos mostram o quão as ciências humanas estão distantes de decifrarem os enigmas que norteiam o comportamento humano.

                   Mas sou um adepto da máxima do “conhece-te a ti mesmo”, embora, asseguro-lhes, que convivo comigo há já alguns consideráveis anos e às vezes me surpreendo perplexo diante de determinadas manifestações súbitas que implodem em mim.

                   Um biólogo da Universidade de Oxford, Estados Unidos, há já algum tempo, levantou o seguinte questionamento: “se partirmos do pressuposto de que nossa mente é regida por algo além dos conceitos éticos e morais aprendidos, como punir então um assassino?”

                   À priori banalizei as conjecturas do biólogo. Achei-as perigosas e indutivas, até, sob o ponto de vista do Direito Penal, embora tudo não ultrapasse os limites da pressuposição do biólogo. Mas, me perguntei: e se for? Afinal, estamos falando de um poço de estranhas impulsões que é a mente humana! Ora..., o que seria, por exemplo, a “violenta emoção”, senão o assalto à mente por súbitos incitamentos avassaladores que transgridem todo o aparato de conceitos éticos e morais?

                   Se fôssemos adiante, encontraríamos milhares de situações onde poderíamos encaixar a pressuposição do biólogo. O que se dizer daqueles casos explorados pela mídia, que envolvem jovens e até pessoas maduras, com excelente nível de escolaridade, status social, intelectualidade, enfim, criaturas provindas e/ou inseridas no seio de famílias aparentemente bem estruturadas, mas que se tornam protagonistas de episódios dantescos ao enveredarem pelos becos escusos da delinqüência, tornando-se, algumas dessas criaturas, nocivas ao próprio convívio social?

                   Quantas vezes, horrorizados, já não nos perguntamos o que leva uma criatura desse naipe a cometer barbaridades, como se esse ser, imerso em transtornos de toda natureza, jogasse para o alto todos aqueles conceitos de moral, de sociabilidade, de bons costumes aprendidos? Seria esse “algo estranho” o que de repente faz implodir dos labirintos sutis da mente humana os instintos bestiais, animalescos que parece romperem todas as barreiras da racionalidade?

                   E se fôssemos ainda mais adiante, seria coerente perguntarmos: esse “algo além” também não estaria se manifestando sorrateiramente sempre quando adulteramos nossa consciência, mesmo tenho-se conhecimento que nós mesmos estamos nos falsificando? Esse “algo além” não estaria nos assaltando quando forjamos, falseamos e/ou maquiamos nossas emoções, sensações e sentimentos para parecermos o que de fato não somos diante de determinadas situações? Será que esse “algo além” não entra em plena atividade quando, capciosamente, pirateamos nossas verdades, nos escondendo por trás de uma das nossas mil máscaras de hipocrisia, de covardia, de subserviência afanadora, de inveja, calúnia, soberba?

                   Aliás, vou me conceder o direito de substituir a palavra REGER. Preferiria indagar o que seria esse “algo além” capaz de INFLUENCIAR nossa mente? Uma impulsividade sem precedentes, que nos assola em tenebrosos transtornos psicológicos? Algo latejante capaz de aniquilar ou colocar em segunda instância todos os nossos conceitos de probidade, honestidade e dignidade, adquiridos ao longo de nossas vidas, através da aprendizagem, da maturidade, da boa educação, dos bons costumes nos repassados?

                   Acredito que são absolutamente indecifráveis os tantos “algo além” que podem influenciar a conduta humana, mas consigo digerir a idéia de que certas propensões e/ou tendências as quais estamos sujeitos, parece estarem vinculadas às nossas origens, ao de onde viemos, isso o que os especialistas chamam de genética humana. Quiçá, se no bojo dessas porções de informações genéticas que definem nossa fisiologia, não recebemos também dos nossos ancestrais, consideráveis percentuais de estímulos que também poderão influenciar na moldagem do nosso psicológico, das nossas predisposições, da nossa índole, das nossas tendências comportamentais?

                   Não é que estejamos a negar ou renegar a influencia do meio onde estamos inseridos, inclusive partilho da concepção de que “o homem é produto do meio”  (ambiente escolar, familiar, social, etc.) na formação das linhas da personalidade de um indivíduo, na formação das nossas virtudes morais, etc.,  mas me deixo levar pela convicção de que a influencia desses meios em determinadas situações, parece falharem quanto a inibição de certas tendências, propensões e propulsões comportamentais perniciosas que talvez estejam imersos em nós.

                   Será que aqueles jovens e pessoas maduras das quais falei anteriormente, seriam “vitimas” desses meios (ambiente escolar, familiar, social, etc.) que fracassaram na inibição de algumas propensões sorrateiras que talvez pulsassem no âmago dessas criaturas?

                  Seriam hilárias as conjecturas aqui esplanadas, se não tivéssemos falando sobre a natureza humana.

 

eduardo.conde@uol.com.br



Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 16h42
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