Emersões - Eduardo Conde
   
Histórico
 


 

 

São espetaculares, por exemplo, os sonhos que douram a cabeça da mocinha que vive o auge de sua adolescência.

 

 

O OLHAR DO SÁBIO.

 

 

 

                   Desde há muito decidi bastar-me a mim mesmo. Sair de cena de alguns espetáculos, sentar-me na platéia como um mero espectador e assistir a vida encenar seus shows. Não, não há com essa atitude, nenhum tipo de desconforto, desânimo, resignação ou algo assim; tão somente passei a crer que existe uma fase em nossas vidas onde ganhamos uma visão privilegiada para descobrirmos que a felicidade não está assim tão fora de nós, como às vezes cremos. Parece existir algo interessante, como se, à medida que vamos superando as fases da vida, outras regiões do córtex cerebral vão sendo gradativamente ativadas, entram em atividade. O espírito redime-se, parece sentir que já conheceu muito, já viveu tudo e então resguarda-se desprovido dos substratos e dos arroubos alvissareiros tão frementes em outras fases da existência humana. Alguns ganham um olhar sereno, perscrutador, como o do sábio que parece ter a dimensão exata de sua sapiência e a convicção de que já cumpriu o tudo traçado para os desígnios de sua existência.

                   Ando beirando essa fase, não que eu – pobre mortal -, tenha alcançado esse grau de elevação maior, mas sei, eu bem sei, que ao longo do tempo a mim concedido até o momento, amealhei tudo, ou quase tudo que a vida tinha para me repassar em forma de aprovações. Estive atento a cada investida, a cada momento, sem desperdiçar um lance ou uma chance que me propiciasse uma forma qualquer de autoconhecimento.                  

                   Se a graça nunca nos chega de graça, - como sustentam algumas correntes filosóficas -, sem dúvidas, fiz jus aos méritos a mim consagrados - poucos, reconheço, - mas esse quase nada me consagra certa sensação de serenidade, de paz mental, emocional, espiritual. Se desatinos cometi ao longo dessa jornada, suas conseqüências não encontraram sustentabilidade ao ponto de impregnar em mim sentimentos de culpas, remorsos, algo nesse sentido. Nada foi minimamente consistente para assolar a consciência e se ela (a consciência) em nada nos cobra, podemos então deitar a cabeça e dormir o sono dos tranqüilos.

                   Naturalmente, quero crer, devem ser árduos os caminhos que nos levam a adquirir o olhar do sábio. Não disponho sequer de bússola para norteá-los, mas apostaria seguramente numa rota: permanecer sempre na guarita da observação, em permanente vigília, colocar todos os interruptores dos radares psíquicos em on. Captar, assimilar, incorporar o sumo das lições que a vida nos oferece, como se todos os dias fossem minúsculas existências.

                   Até parece ser uma tremenda pretensão de minha parte tentar alcançar esse olhar sábio. Não, não é bem assim, mas sempre chamo para mim tudo que pode engrandecer-me nesse propósito; às vezes até impulsivamente, como a querer antecipar, saltar as etapas que divisam as fases de crescimento, desenvolvimento e amadurecimento do ser humano. Suponho, entretanto, que não convém atropelar o curso natural da vida, dos seus estágios, dos seus ciclos. Cada um desses portais deve ter lá as suas peculiaridades, como se fossem ciclos contínuos e interdependentes, embora por vezes tenha me deparado com criaturas excepcionais que transmitem uma sensação enorme e absoluta de maturidade, de sapiência incrivelmente espetaculares, como se estivessem além do seu próprio tempo existencial, como se tivessem quebrado o ritmo, o processo natural das tais fases de desenvolvimento pessoal, mental, psíquico, espiritual. Naturalmente são casos esporádicos que fogem a trivialidade do convencional.

                    Apesar das agruras com as quais nos deparamos ao longo das etapas do viver, parece prazeroso vivê-las em sua plenitude, no compasso, na cadência e no ritmo natural da vida. São espetaculares, por exemplo, os sonhos que douram a cabeça da mocinha que vive o auge de sua adolescência; são fantásticos os arroubos do mocinho que sente as forças da jovialidade latejarem em seu corpo; é esplêndida a sensatez, a transparência, a sapiência que se reluz no olhar do sábio, esse simples mortal que impôs o diferencial na sua existência, ao amealhar todas as lições adquiridas ao longo de sua trajetória existencial; que viveu regido pelas leis de suas verdades; que, enfim, simplesmente não só passou pela vida.

 

 eduardo.conde@uol.com.br



Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 16h36
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Há pássaros que não cantam quando confinados, mesmo em amplas, granfinas e luxuosas gaiolas. Entristecem, amofinam e agonizam numa morte lenta.

 

 

 

ÁRVORES DE CONCRETO

 

 

 

 

 

                   Existem os que apontam mil e uma vantagens, mas atualmente ao sentir na pele como funciona essa modalidade de se viver em aglomerado, posso dizer que tem me custado caro encarar determinados “modernismos”, dentre eles o de morar dependurado, em apartamento!

                   Tentando me adaptar à minha nova realidade, em termos de moradia, procurei conhecer alguns segredos para viver e conviver em condomínio de apartamentos. Descobri que há condomínios onde o regimento interno é um tanto quanto maleável, ficando muitas vezes por conta do bom senso dos próprios condôminos a política da boa vizinha e, por incrível que pareça, a coisa parece fluir satisfatoriamente; noutros, o tal regimento me fez lembrar alguns resquícios do regime militar. Não se pode isso, não se pode aquilo, muito menos aquilo outro. É regra para tudo!

                   O fato de ter que se conviver com pessoas estranhas - detalhe esse que para muitos é um inconveniente -, para mim não é, ou pelo menos não tem sido. Se imaginássemos um condomínio onde os moradores fossem todos familiares, parentes, amigos ou conhecidos, com certeza, também teríamos alguns “incômodos”.

                   O problema então se resume naquela velha máxima: se cada condômino tivesse o hábito de fazer uso da lei do bom senso e fosse adepto do lema de que o seu direito termina onde começa o do outro, muitos contratempos ocorridos na vida em comunidade, não existiriam. Mas a realidade é que em todo e qualquer aglomerado de pessoas, a lei da “força bruta”, para determinadas criaturas, parece mesmo ser a única alternativa para uma convivência civilizada.

                   Dizem que a grande vantagem de se morar “atrepado”, é a segurança. Realmente, embora a mídia tenha mostrado que a violência já adentrou pela



Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 10h56
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portaria, inclusive em condomínios de luxo, providos com todo o aparato de segurança que a tecnologia moderna pode oferecer. São casos esporádicos, mas de certa forma até parece que a vulnerabilidade chegou também onde não se imaginava.

                   Mas há algo interessante: ao elegermos a segurança como um ponto positivo nessa modalidade de moradia e imaginarmos que estamos livres de determinados inconvenientes, na realidade, somos nós, os moradores de condomínios, que estamos nos condenando à pena de prisão; somos nós que estamos sempre por trás de muros altos que mais parecem muralhas; somos nós que estamos aprendendo a nos camuflar; somos nós que constantemente estamos fazendo uso de todo tipo de parafernália que a tecnologia de segurança pode nos oferecer.   

                   Pois bem, mas nessas buscas de tentar conhecer o que realmente rege “a vida” de um condomínio, descobri a tal Lei da convenção de condomínio e mesmo não sendo especialista na área imobiliária, encontrei, em determinados artigos dessa Lei, detalhes interessantes; tanto em relação a algumas restrições impostas aos condôminos, como à ênfase dada na preocupação ao resguardo das fachadas dos edifícios condominiais, que, segundo a Lei, tal preocupação é uma forma de se preservar a harmonia arquitetônica e estética do edifício.

                   É perfeitamente aceitável determinadas restrições, mas quando se trata de segurança dos condôminos, tanto externa como interna, as ressalvas deveriam ser mais maleáveis; a preocupação com a estética ou com a fachada dos edifícios condominiais, deveria ficar em segundo plano.

                   Por exemplo, é comum encontrarmos condomínios de apartamentos, inclusive de luxo, onde janelas e principalmente varandas são totalmente desprovidas de qualquer tipo de proteção, alguns possuindo tímidos anteparos de alvenaria.

                   É verdade que no mercado especializado existem as utilizadíssimas redes de proteção, confeccionadas de nylon, próprias para essa finalidade e por serem discretas e não alterarem a estética dos edifícios, são amplamente utilizadas sem maiores problemas, mas, a meu ver, são  paliativos, não tão confiáveis. 

                   Aliás, alguns modelos dessas redes, lembram até teias de aranhas. Agora já imaginou se a criançada resolve mirar-se nas façanhas do “homem aranha” e de repente ta lá a molecada brincando de escalar essas redes em pleno 9º andar!

                   Se um condômino que mora no 9º andar, por exemplo, que é pai de filhos menores, e a titulo de prevenção contra acidentes, resolve instalar grades realmente confiáveis em janelas, portas e varandas, mas caso a instalação desses anteparos afetem a tal harmonia arquitetônica do prédio, mesmo em nome da sua segurança pessoal e de sua família, seguramente esse condômino esbarrará na tal lei e terá alguns transtornos.

                   Já que a preocupação com a estética dos edifícios surge como relevo na Lei, as empresas construtoras, ao planejarem seus condomínios, bem que poderiam já fazer constar nos seus projetos arquitetônicos, a instalação de anteparos realmente confiáveis, instalados em todos os pontos vulneráveis dos apartamentos. Naturalmente esse detalhe afetaria o custo final do empreendimento, mas a segurança interna estaria preservada, afinal, são consideráveis os casos de acidentes, muitos até fatais que poderiam ser evitados se a preocupação maior se voltasse para o condômino. 

                   Pois bem, mas a onda agora é essa tal de verticalização. Nos grandes centros urbanos a proliferação desses aglomerados de espigões a brotarem do ventre da terra está seguindo de vento em popa. Dizem que são sinais da modernidade. Ora..., em tempos remotos o homem já construía sua moradia no topo das árvores para se proteger dos predadores! Nós estamos construindo as nossas, no topo de árvores de concreto! Eu diria que estamos mesmo aprendendo a se viver confinado, feito pássaros em gaiolas.

                   E aí me dou conta do quanto deve padecer, principalmente essa criançada que vive enclausurada por conta dessa alardeada “modernidade”. Essa molecada jamais desfrutará das traquinagens maravilhosas e salutares de poder subir num muro para roubar frutas do quintal da vizinha! Essa moçada jamais experimentará o gosto de ter um quintal, de subir em árvores, de ter terra para pisar, de se sujar, de se lamear.

                   Me dou conta que essa criançada não sabe o quanto é bom e saudável tomar um banho de chuva na bica do quintal! De correr, pular e saltar fora do perímetro de quatro colunas de concreto.

                   Não estou a condenar quem tem uma visão diferente da minha, claro que não. Apenas ressalto que para muitas pessoas – e eu me incluo nesse rol -, é um tanto quanto estranho, enfadonho, estressante e depressivo o regime de vida em alguns condomínios fechados.

                   Aliás, seria um tema interessante para estudos por parte dos senhores psicólogos, médicos, educadores e outros profissionais de áreas afins. Afinal, existem pássaros que não cantam quando confinados, mesmo em amplas, granfinas e luxuosas gaiolas. Entristecem, amofinam e agonizam numa morte lenta.

                   Mas há outro detalhe também interessante: a palavra “vizinho” antigamente não era só aquele que morava próximo a nós; era também aquele com quem mantínhamos certa aproximação, amizade, intimidade, consideração.

                   Salvo as devidas exceções, na vida em condomínio as pessoas se cruzam nos elevadores, se esbarram nas escadas, nos corredores e não se conhecem, não se falam, não se cumprimentam e muitas vezes não se conhece nem mesmo o nosso vizinho, ou melhor, aquele que mora próximo a nós. É todo mundo “na sua”, numa atitude comportamental estranha que parece ir de encontro a tese de que “o homem é um animal social por natureza”. 

                   Por conta dessa “individualidade”, há quem imagine que o advento dos condomínios de apartamentos, fez desaparecer a figura das tradicionais alcoviteiras. Eu não apostaria muito nessa suposição, não. Não se sabe o que se esconde por trás daquela janela que nunca se abre! Aliás, desde quando me resolvi “engaiolar”, passei a acreditar muito mais do que nunca de que “as paredes possuem bons ouvidos e excelentes olhos!

                   Bom, mas ando tentando me adaptar à minha nova modalidade de vida. Mexe aqui, mexe acolá e vou seguindo, mas..., confesso, não tem sido fácil, principalmente quando me posiciono na sacada do meu apartamento. É aí que me sinto qual um passarinho, desses que não cantam quando engaiolados. Um passarinho com vontade de voar.

 

eduardo.conde@uol.com.br

 



Escrito por Eduardo Augusto Conde Cavalcan às 10h56
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